sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Chocolate e os benefícios cardiovasculares...quando tem cacau! - Coluna Nutrição





Chocolate e os benefícios cardiovasculares
...  quando tem cacau!


Antonione Araújo Coelho, Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda



O consumo do chocolate tem sido incentivado por conter diversas substâncias com efeitos medicinais provenientes do cacau. Portanto, seu efeito benéfico depende da quantidade de cacau utilizada em sua fabricação. A Legislação Brasileira não estabelece uma quantidade mínima de cacau a ser colocada no chocolate. Apenas define chocolate como o produto preparado com cacau obtido por processo tecnológico adequado e açúcar, podendo conter outras substâncias alimentícias aprovadas (1).

Desde a Antiguidade, as sementes de cacau já eram utilizadas de forma terapêutica pelos maias e astecas como estimulante, pomada analgésica e bebida energética consumida pelos guerreiros antes das batalhas. Os incas consideravam a bebida à base de cacau como uma bebida dos deuses (2). Atualmente seus atributos medicinais são comprovados. Ele possui substâncias antioxidantes (polifenóis), que atuam na prevenção de câncer, doenças neurodegenerativas e cardiovasculares. Os efeitos na prevenção das doenças cardiovasculares são obtidos por meio da redução do colesterol LDL (colesterol ruim), aumento do colesterol HDL (colesterol bom) e estímulo da produção de substâncias precursoras do óxido nítrico, importante para a redução da pressão arterial (3,4).




Os benefícios do cacau foram comprovados por diversos estudos científicos. Por exemplo, um destes estudos foi realizado com mulheres no período da menopausa, sem diagnóstico de doenças cardiovasculares. Estas mulheres foram observadas durante 16 anos e, neste período, houve redução do risco de morte por doenças cardiovasculares associado ao alto consumo de alimentos ricos em polifenóis (5). Outro estudo envolvendo homens idosos, saudáveis, mostrou redução da mortalidade por doença cardiovascular e por todas as outras causas no grupo com maior ingestão de cacau (6).
Os derivados do cacau presentes no chocolate são a massa de cacau e a manteiga de cacau (que é a gordura do cacau). A massa de cacau é oriunda da semente do cacau, que é fermentada e seca. Ela é que contém os compostos benéficos para a saúde, por sinal em quantidade superior à encontrada em chás e vinho tinto (7,8,9). Quanto à gordura do cacau, ela não é prejudicial ao coração. Porém, como todas as gorduras, possui valor energético elevado, o que contribui para o ganho de peso quando consumida em excesso, e não contem polifenóis.

Entretanto, nem todos estes benefícios estão nos chocolates que consumimos. Algumas indústrias colocam muito mais açúcar e outros ingredientes do que massa de cacau em seus chocolates. Pela lista de ingredientes é possível ter uma ideia da quantidade de massa de cacau presente em cada tipo de chocolate. A legislação brasileira estabelece que os ingredientes utilizados nos alimentos industrializados sejam colocados em ordem decrescente de quantidade. Portanto, o ingrediente citado em primeiro lugar na lista de ingredientes é o que está em maior quantidade no referido alimento e o último em menor quantidade.

As figuras abaixo são fotos da informação nutricional e lista de ingrediente de alguns tipos de chocolate comercializados no Brasil. Observa-se que os ingredientes colocados em maior quantidade são o açúcar, o leite em pó e a manteiga de cacau (Figura 1). O chocolate branco nem contém massa de cacau. Nele, de cacau, apenas a manteiga (Figura 2)







Os chocolates de melhor qualidade possuem maior quantidade de cacau e, normalmente, especificam o teor de cacau presente. Alguns chegam a conter até 85% de massa de cacau. Nos chocolates em que o cacau é o ingrediente majoritário, a massa de cacau deve ser o primeiro ingrediente citado na lista de ingredientes.  A figura 3 é de um chocolate que alega conter 70% de massa de cacau. Em sua lista de ingredientes pode-se observar que a massa de cacau foi o ingrediente citado em primeiro lugar.





Deve-se atentar também para outros ingredientes, como a gordura vegetal presente em muitos chocolates. Dentre as gorduras vegetais industrializadas, há o tipo hidrogenada, que contém altos teores de gordura trans e é extremamente prejudicial para a saúde. O fato de não haver especificação sobre o tipo de gordura que está sendo colocado nos chocolates levanta dúvida de que possa ser hidrogenada. Observe nas figuras 1 e 2, nas listas de ingredientes, que há presença de gordura vegetal. Já na lista de ingredientes mostrada na Figura 3 não há menção de gordura hidrogenada.

Agora consumidor, na hora de escolher o chocolate, leia a lista de ingredientes. Dê preferência ao que contém maior teor de massa de cacau e nenhuma gordura vegetal. Seu corpo vai agradecer!

REFERÊNCIAS

1 - BRASIL, Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 12, de 24 de jul. 1978, Normas técnicas especiais, revistas pela CNNPA, relativas a alimentos (e bebidas). Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/12_78_bombons.htm>. Acessado em: 12 abr. 2009.

2 - Corti R, Flammer Aj, Holemberg NK, et al. Cocoa and cardiovascular health. Circulation 2009; 119 (10): 433-1441.

3 - Schenarr O, Brassette T, Mammo TY, et al. cocoa flavonoles lawer vascular orgenase  acivity  in human endothelial cells in vitro and in erythraeytes in vivo.Arch Beachem Beophys 2008, 476(2):211-215.

4 - Fraga CG,Littero MC, Princ PD, et al. Cocoa flavonoles: effect on  vascular nitric oxide and bland pressure. J  clin Beachim Nutr 2011, 48(1): 65-67.


5 - Mink PJ, Scrafford CG,Borraj LM, et al. Flavonoid intact and cardiovascular disease mortality: a prospective study in partmenapousal women. Am  J clen Nutr 2007, 85(3) 895-909.

6 - Buijsse b, weikert C,Bragan D, et al. chocolat consumpetian in relation to blood pressure and resk of cardiovascular deseare in German adult, Eur Heart J. 2010;31(13)1616-1623.

7 - BRITO, E. S. Estudo de Mudanças Estruturais e Químicas Produzidas Durante Fermentação, Secagem e Torração do Cacau (TheobromaCacao L.); e Propostas de Tratamento Para o Melhoramento de Sabor. 2000. Tese (Doutor em Tecnologia de Alimentos)-Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas,Campinas.

8 - ZUMBÉ, A. Polyphenols in cocoa: are there health benefits? BNF Nutrition Bulletin, London, v. 23, n. 1, p. 94-102, 1998. http:// dx.doi.org/10.1111/j.1467-3010.1998.tb01088.x

9 - Manoel C, Scalbert A, Morand C, et al. Polyphenols; food sources and bioavailability Am J clin Nutr. 2004; 79(5): 727-747.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Controle biológico contra Aedes aegypti

Pesquisadores da UENF e da Universidade de Swansea mostram que ação de fungo consegue matar larvas do mosquito em poucas horas

Richard Samuels, Aline Carolino e Tallhes Mattoso, na UENF
Um método natural de controle do mosquito Aedes aegypti, baseado no ataque de um fungo entomopatogênico (que naturalmente parasita insetos), foi desenvolvido conjuntamente por pesquisadores da UENF e da Universidade de Swansea, Reino Unido, liderados pelos professores Richard Ian Samuels, do Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF), e Tariq Butt (Swansea). A pesquisa, Financiada pela Faperj, Capes e CNPq, foi publicada pela Revista Científica americana PLoS Pathogens nesta quinta-feira, 07/07/16.

O estudo mostra que fungos entomopatogênicos podem crescer em suspensões líquidas e em substratos sólidos e os seus esporos podem atacar e matar mosquitos em ambientes aquáticos ou terrestres. De acordo com a pesquisa, num ambiente aquático, o ataque dos fungos contra as larvas do mosquito ocorre de forma especializada, rápida e eficaz, com alto potencial para controle do mosquito.

Tariq Butt
— O mosquito Aedes aegypti transmite vírus, incluindo dengue, Zika, e chikungunya, contra os quais não há vacinas ou tratamentos disponíveis no momento. O controle dos insetos vetores é a única forma de reduzir a transmissão, que atualmente depende da aplicação de pesticidas sintéticos. Há preocupações com a saúde e os impactos ambientais destes pesticidas, bem como o desenvolvimento e propagação da resistência em populações de mosquitos. O controle biológico do vetor usando agentes patogénicos para os insetos é uma alternativa atraente — explica Richard.

Segundo ele, os fungos podem matar insetos em diferentes ambientes.  Eles produzem esporos aéreos chamados conídios em substratos sólidos e blastosporos em meios líquidos. Blastosporos são considerados mais virulentos (isto é, mais prejudiciais para o inseto alvo), mas as razões para isso não são bem compreendidos.

— Neste estudo, nós conseguimos dar uma olhada mais de perto de como os blastosporos do fungo Metarhizium brunneum atacam os insetos e matam as larvas de mosquitos em seu habitat natural, ou seja, em água doce. Descobrimos que os blastosporos de M. brunneum mataram as larvas de Aedes aegypti muito mais rápido do que os conídios do mesmo fungo — afirma o professor da UENF.

Blastosporo penetrando o intestino da larva
A morte das larvas foi associada às características específicas da interação blastosporo-inseto, que provavelmente contribuem para a virulência. Os pesquisadores descobriram que blastosporos facilmente aderiram no tegumento larval, o que é facilitado pela secreção de mucilagem pelos blastosporos. Esta mucilagem não é solúvel em água e é difícil de quebrar-se ou remover tanto mecanicamente ou com detergentes. Depois de colar no tegumento, os blastosporos penetram facilmente a cutícula larval (sem a formação de estruturas de perfuração especializadas chamadas appressoria usados por alguns fungos para romper a superfície do hospedeiro). Os blastosporos na água também são ingeridos pelas larvas. Em seguida, começam a se multiplicar rapidamente no intestino das larvas e de lá invadem o equivalente larval da sistema circulatório.

Já os conídios podem atacar as larvas de Aedes aegypti, mas não aderem facilmente ao tegumento larval como ocorre com os blastosporos.  Além disso, os conídios dependem de uma combinação da penetração mecânica e da produção de enzimas chamadas proteases, que degradam a cutícula para penetrar no hospedeiro. Em contraste, a invasão pelos blastosporos pode acontecer mesmo na presença de drogas que inibem essas enzimas.

Mosquito Aedes aegypti
Dentro de horas após os blastosporos se ligarem à cutícula larval, os pesquisadores foram capazes de detectar complexas respostas imunológicas e estresse nas larvas. No entanto, essas defesas são insuficientes para proteger contra os invasores, e as larvas morrem dentro de 12-24 horas após o primeiro contato.

— Pontos múltiplos de entrada e danos brutos na cutícula e intestino (por blastoporos) resultam em morte larval rápida. Os conídios, por outro lado, não aderem à cutícula nem germinam no intestino, mas causam a mortalidade induzida pelo estresse, o que leva mais tempo para matar as larvas — afirmam os pesquisadores em seu artigo. Uma vez que os blastosporos são também baratos e rápidos para serem produzidos em meio líquido, os pesquisadores concluíram que estes podem ter um maior potencial para o controle do A. aegypti.

Colaboração científica

Aline e Talles na Universidade de Swansea
A pesquisa teve a participação de dois alunos/orientados do grupo de pesquisa do professor Richard (Patologia de Insetos) do LEF/UENF: Thalles Cardoso Mattoso e Aline Teixeira Carolino, que receberam bolsas de doutorado sanduíche da Capes. Thalles trabalhou principalmente na Universidade de Bath e ainda na Universidade de Swansea (ambas no Reino Unido) e Aline somente em Swansea. Na mesma época, o professor Richard fez estágio sênior apoiado pela Capes, ligado às duas Universidades.

— É importante ressaltar a importância desse estágio no exterior para firmar a colaboração com pesquisadores externos. Não foi tão fácil no início, mas o avanço foi surpreendente. Vamos dar continuidade a esta colaboração, com o objetivo de reduzir o sofrimento provocado por estas epidemias, minimizando os problemas ambientais e de saúde das pessoas — afirma o professor, lembrando que o próximo passo é desenvolver um inseticida biológico para uso doméstico.

Para Aline e Thalles, a experiência em atuar em Universidades estrangeiras foi inestimável. Thalles ressalta os ganhos de estar em contato com pesquisadores de vários países do mundo, com culturas inteiramente diferentes. Aline conta que foi muito bem recebida. Adaptou-se tão bem que foi convidada a continuar na Universidade de Swansea, mas não pôde aceitar o convite porque ainda não tinha defendido sua tese de doutorado. Ambos continuam atuando no LEF com o professor Richard, aguardando pedidos de bolsas de Pós-Doutorado Capes Nota Dez da Faperj.

— O que mais me chamou a atenção lá foi a rapidez com que a pesquisa se desenrola. Isso porque a burocracia lá é muito menor que aqui, principalmente no que se refere à compra de materiais necessários à pesquisa — diz Aline.

Para a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UENF, Rosana Rodrigues, o sucesso da pesquisa mostra o quanto é importante manter os investimentos em Ciência e Tecnologia no Brasil.

— Conseguir um avanço científico dessa natureza, capaz de mitigar o sofrimento da população sem agredir o meio ambiente, mostra o potencial da UENF em responder a um problema dessa magnitude. Nossa capacidade de pesquisa se equipara às maiores e mais tradicionais universidades do mundo. Temos certeza de que continuar investindo em ciência e tecnologia é a única saída para superar a crise pela qual estamos passando no Pais — conclui.

A equipe da UENF é constituída, além deles, de mais dois doutorandos, um pós-doutorando da Capes, dois bolsistas de Iniciação Científica e três bolsistas de extensão da UENF. O trabalho de campo vinha sendo feito há cinco anos em São João da Barra, mas teve que ser transferido para Campos por conta da falta de recursos da UENF. Atualmente, a pesquisa de campo está concentrada no condomínio Mondrian Life, em frente à UENF.

— As pesquisas continuam. Ainda temos recursos do programa Cientista do Nosso Estado, da Faperj, e aguardamos a liberação dos recursos da Rede Zika, também da Faperj cujo edital foi lançado no ano passado — informa Richard, que foi designado vice-coordenador da Rede Zika #1-Vetores.




segunda-feira, 4 de julho de 2016

Pesquisadores desenvolvem máquina que caracteriza corrosão

Busca-Pites permite monitorar corrosão de forma mais rápida e objetiva, aumentando a produtividade

Estima-se que os custos diretos com a corrosão nos países desenvolvidos está entre 3% e 4% do PIB. Os custos indiretos são da mesma ordem. Cerca de 20% de todo o aço produzido é usado para repor peças danificadas pela corrosão.

A corrosão é especialmente crítica para a indústria de exploração e produção de óleo e gás offshore pelo ambiente severo a que submete os materiais usados por ela e pela logística difícil com que opera.

Diversas técnicas de monitoração e inibição da corrosão são usadas. A mais comum é a exposição e análise de cupons de corrosão. Esta técnica consiste em expor peças metálicas feitas de materiais e formas diversas (cupons de corrosão) durante algum tempo em determinado local a ser monitorado e depois caracterizar o dano produzido pela corrosão.

A corrosão por pites é uma das formas mais insidiosas de corrosão existentes. Ela é bastante comum em certos tipos de aço inoxidável.


Cupom de corrosão antes da exposição(a), depois da exposição (b) e após limpeza para caracterização (c), Pites podem ser vistos na superfície do cupom a ser caracterizado.


A caracterização da corrosão por pites em cupons consiste em contar o número de pites por unidade de área afetada, medir a área da abertura dos pites e sua profundidade. Devido às pequenas dimensões dos pites, a caracterização é geralmente feita com uso de microscópio em um procedimento quase que inteiramente manual. É uma tarefa que demanda muito trabalho, tempo e envolve subjetividade.

Os professores Angelus G. P. da Silva, Marcelo Filgueira, Ronaldo Paranhos e Elaine Pereira, do Laboratório de Materiais Avançados da UENF (LAMAV), e Ítalo de Oliveira Matias, da Universidade Cândido Mendes (UCAM), juntamente com os alunos de Pós-Graduação do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais (PPGECM) Ianne Lima Nogueira e Daniel Corrêa Manhães, desenvolveram o Busca-Pites, como parte de um projeto de pesquisa financiado pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).

O Busca-Pites é uma máquina que introduz automação na rotina de caracterização de pites em cupons como forma de reduzir a subjetividade e aumentar a produtividade.  A máquina integra partes comerciais através de um software que as comanda. Os três parâmetros de caracterização de pites são determinados ao mesmo tempo e um relatório com os resultados é emitido. O programa fotografa a superfície do cupom, identifica os pites presentes na imagem, conta-os, determina a área da abertura de cada um e sua localização. Em seguida, ativa um sensor de tecnologia confocal que mede a profundidade de cada pite.

Tela do programa Busca-Pite exibindo pites de corrosão. Os pites  com contorno vermelho foram reconhecidos pelo programa. 

Enquanto a técnica convencional de microscopia mede os três parâmetros em dois procedimentos diferentes, o busca-pites faz o mesmo de uma vez apenas. Um teste comparativo revelou que a caracterização de pites pelo Busca-Pites consumiu 60% do tempo necessário para caracterizar pelo método convencional da microscopia, com a vantagem adicional que o Busca-Pites mede a profundidade de todos os pites, enquanto que a técnica de microscopia convencional determina a profundidade dos dez pites mais profundos apenas.

Veja aqui um vídeo que descreve o funcionamento do Busca-Pites


Texto: Angelus G.P.da Silva


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Por que carnes processadas podem causar câncer?




Por que carnes processadas podem causar câncer?


Karla Silva Ferreira* e Vanessa Alves Henrique

Em Outubro de 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Agência Internacional de Investigação do Câncer (IARC) publicaram um relatório informando que o consumo excessivo de carne processada provavelmente seja cancerígeno para o ser humano. Este relatório foi elaborado por uma equipe composta por 22 especialistas de 10 países, que após intensa revisão de pesquisas científicas, concluíram que o risco de desenvolver câncer colorretal aumenta em 18% a cada porção de 50 gramas de carne processada ingerida diariamente.

Esta informação alarmou a população, no entanto não houve a devida explicação sobre a causa de carnes processadas serem cancerígenas. A razão mais provável é a utilização dos aditivos “nitrato” e “nitrito” nestes alimentos.

O nitrato e nitrito são componentes dos sais de cura e, consequentemente, colocados nos produtos curados, tais como salsicha, bacon, salame, mortadela, presunto, apresuntado (embutidos em geral) e também em alguns tipos de queijos (exceto os queijos frescais).

Durante o processo de cura o nitrato e nitrito participam de diversas reações nos alimentos e no organismo, dando origem tanto a substâncias prejudiciais quanto benéficas para a saúde. A figura 1 ilustra as reações do nitrato e nitrito.

As substâncias formadas a partir do nitrato são “nitro ácidos graxos” e “nitritos”. Durante o processo de cura, bactérias transformam parte do nitrato em nitrito. Já os “nitro ácidos graxos” são formados dentro do organismo quando a pessoa ingere alimentos contendo nitrato ou nitrito e lipídios insaturados. Estes compostos são benéficos para a saúde, pois abaixam a pressão arterial, contribuindo assim para a prevenção de doenças cardiovasculares. (ver matéria “Nitro ácidos graxos: mais um fator positivo na dieta do Mediterrâneo”  -http://uenfciencia.blogspot.com.br/2014/09/coluna-nutricao.html).

Os nitritos dão cor à carne, atuam como conservante mas geram substâncias cancerígenas. Como conservantes, inibem o crescimento da bactéria Clostridium botulinum, causadora do botulismo, que pode ser fatal.  O processo de coloração da carne ocorre após a conversão do nitrito em óxido nítrico (NO), que reage com a mioglobina produzindo a cor característica dos produtos curados: vermelha intensa quando a carne não é submetida a aquecimento (salames) ou rosa quando a carne é cozida (presuntos e apresuntados). Já as substâncias cancerígenas, denominadas nitrosaminas, são formadas pela reação do nitrito com proteínas, aminoácidos e outros compostos que contêm nitrogênio.



Os principais tipos de câncer relacionados com a ingestão de nitrosaminas são os de esôfago, fígado e estômago. Há fatores que favorecem e outros que inibem a sua formação nos alimentos. A adição de agentes redutores nos sais de cura, como a vitamina C, tem efeito inibidor. Por outro lado, o aquecimento propicia sua formação.  Desta forma, os teores podem ser mais elevados nos produtos curados que são aquecidos, por exemplo são maiores no bacon frito do que no cru. Na tabela 1 são apresentados os teores de nitrosaminas numa porção de 50g de alguns alimentos curados e na Figura 2 fotos de porções com, aproximadamente, 50 gramas de alguns destes produtos.




No Brasil, assim como na maior parte dos países, ainda não existe monitoramento nem legislação específica para avaliar a presença de nitrosaminas nos alimentos. Nos países em que há regulamentação específica para os teores de nitrosaminas em alimentos, estes são determinados de acordo com o hábito alimentar da população. Por exemplo, o teor máximo em carnes curadas, que é um dos alimentos com teores mais elevados de nitrosaminas, pode chegar a 1,5 microgramas em 50 gramas de alimento no Chile, mas apenas 0,5 nos Estados Unidos. Na tabela 2 são apresentados os limites máximos de nitrosaminas em alguns alimentos estabelecidos em alguns destes países.



Quanto às carnes vermelhas “in natura”, sem adição de nitrato e nitrito, não há comprovação científica de que possuam efeito cancerígeno. A Organização Mundial de Saúde apenas adverte que seu consumo excessivo pode trazer prejuízos à saúde. Esta advertência deveria ser estendida aos demais tipos de carnes, visto que as alterações que podem ocorrer com as carnes (durante o preparo e no organismo após a ingestão), levando à formação de substâncias prejudiciais para a saúde, ocorrem com qualquer tipo de carne e, em alguns casos, também com outros alimentos ricos em proteínas. A quantidade prudente de carne para ser ingerida diariamente é em torno de 100 gramas.

Com base nos estudos feitos até o momento, as atitudes mais sensatas com relação à prevenção dos problemas de saúde causados pela ingestão de carne são os seguintes:

1) Não confundir os termos “evitar” com ‘abolir totalmente”.
2) Evitar o consumo excessivo dos produtos curados, principalmente aquecidos.
3) Ingerir duas ou mais porções de hortaliças por dia e, quando possível, ingeri-los com azeite.

*Profa da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Nutricionista, Dra em Ciência e Tecnologia de Alimentos e Pós DS em Química Analítica.


Referências Bibliográficas
1 – Bragadutra, C., Rath, S., Reyes, F,G. Nitrosaminas voláteis em alimentos. Alim. Nutr. Araraquara v.18, n.1, p.111-120, 2007.

3- Canhos, D.L., Dias, E.L. Tecnologia de carne bovina e produtos derivados. Fundação Tropical de Pesquisas e Tecnologia, São Paulo, 440p. s.d.

2 – International Agency for Research on Cancer; World Health Organization. IARC Monographs evaluate consumption of red meat and processed meat. Comunicado de imprensa, Nº 240, 26 de Outubro de 2015.
Disponível em: https://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2015/pdfs/pr240_E.pdf. Acessado em 20/06/2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pesquisadores da UENF criam provador virtual de roupas

Em um trabalho de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais da UENF, Élisson Michael Fernandes Meirelles Araújo desenvolveu um provador virtual de roupas, sob a orientação do professor Angelus G. P. da Silva, em cooperação com o professor Ítalo de Oliveira Matias, da Universidade Cândido Mendes.

A ideia original era adaptar um dispositivo lançado no mercado para jogos eletrônicos a uma aplicação de controle de movimentos de uma máquina por gestos. Os primeiros testes, entretanto, demonstraram que aquela era uma tarefa muito simples para o potencial daquele produto. Em busca de uma aplicação mais desafiadora, visto que não tinham à disposição uma máquina de operação complexa que permitisse seu comando por gestos, eles procuraram algo que exigisse a captura, o reconhecimento, a interpretação e resposta a gestos específicos, a adaptação da resposta a fatores ambientais,  e a medição de distâncias. Encontraram essas características e muitas outros desafios em um provador virtual de roupas.



Provadores virtuais de roupas são peça fundamental para incrementar o comércio de roupas pela internet e mesmo para oferecer ao cliente presencial uma forma de provar um número maior de alternativas para auxiliar a escolha da peça de maior agrado. Os provadores virtuais basicamente projetam sobre o corpo do usuário, ou de um modelo, a peça de roupa ou acessório, permitindo que ele sinta se a peça corresponde às suas expectativas.

- Existem diversas abordagens adotadas para construção de provadores virtuais. Nenhuma delas satisfaz completamente. A nossa é mais uma que também não resolve todos os problemas, mas nosso objetivo jamais foi desenvolver um provador virtual comercial, e sim desenvolver técnicas que devem ter um provador e que podem ser aproveitadas em aplicações que envolvam controle de máquinas por gestos. Isso, nós conseguimos - dizem os autores do projeto.



O provador desenvolvido captura a imagem do usuário com uma câmera, determina a distância e o tamanho do corpo do usuário e projeta a peça de vestuário escolhida sobre a parte do corpo correspondente, enquanto exibe a imagem em tempo real para o usuário. A peça de roupa projetada acompanha os movimentos do corpo, procurando se conformar aos movimentos realizados. O provador reage a determinados gestos do usuário e não se confunde com os demais elementos presentes na cena.

Veja aqui um vídeo que exibe o provador em funcionamento.

(Texto: Ângelus Giuseppe Pereira da Silva)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

UENF desenvolve disco solar para tratamento de água

O disco solar está instalado no Núcleo de Energias Alternativas da UENF
O consumo de água contaminada é um dos principais problemas de saúde pública no Brasil. Com o objetivo de tentar mudar esta realidade, o Laboratório de Ciências Químicas da UENF (LCQUI) vem buscando uma forma eficiente e barata de tratamento da água, baseada no uso da energia solar. Já está em fase de testes, no Núcleo de Energias Alternativas da Universidade, o protótipo de um disco solar térmico capaz de promover a desinfecção da água através de um sistema de reflexão e seguimento solar. O sistema recebe a luz solar e a reflete para um ponto, onde esta é transformada em energia térmica capaz de aquecer a água até que ocorra a sua esterilização.

Intitulada “Construção e implementação no Brasil de sistemas de concentração solar e materiais fotocatalíticos para purificação química e biológica em águas e ar”, a pesquisa tem a coordenação da professora Maria Cristina Canela e colaboração do professor Benigno Sanchez Cabrero, do CIEMAT – Plataforma Solar de Almeria, Espanha, que atua como pesquisador visitante especial na UENF.

— O professor Benigno vem trabalhando incansavelmente neste projeto junto conosco. Ele vem três meses por ano ao Brasil só para isso. Além disso, co-orienta os estudantes envolvidos e faz questão de fazer vários ensaios e aprimorar os experimentos com a sua experiência na Plataforma Solar de Almeria — diz a professora Maria Cristina.

Segundo ela, trata-se de uma tecnologia de fácil manipulação, não sendo necessária mão-de-obra especializada para a manutenção rotineira do equipamento. Constituído por uma estrutura leve de alumínio, o disco solar é multifacetado e conformado por espelhos simples, que são dispostos de maneira que haja baixa resistência ao ar. Além disso, o equipamento não requer custos altos de instalações.

Maria Cristina Canela e Benigno Sanchez
A ideia é utilizar o disco solar inicialmente em águas de poços rasos, muito utilizados na zona rural, onde não chega a rede de água potável. Dados do IBGE mostram que na zona rural 54,8% da água vem de poços e nascentes. Um estudo feito pela empresa Trata Brasil e Fundação Getúlio Vargas mostra que o SUS recebe cerca de 800 pacientes/dia com doenças diretamente ligadas ao saneamento ambiental inadequado, como diarreias, febre amarela, leptospirose, micoses, entre outras.

- O Brasil tem investido muito nos últimos anos em energias renováveis e o potencial brasileiro para energia solar não pode ser negligenciado e pode ser importante tanto do ponto de vista de grande escala como em pequenas unidades – afirma Cristina.

Segundo Cristina, a tecnologia de concentradores solares surgiu na década de 1970 como um caminho para a produção de energia através do aquecimento de um fluido e para tratamento de materiais pela concentração de energia do sol em uma área definida. Os discos solares podem produzir concentração de energia muito alta e então alcançar um aumento significativo de temperatura. Diferentes sistemas têm sido desenvolvidos para esta finalidade, embora em alguns casos estes discos possam necessitar de grandes áreas e serem muito caros.

 - Nosso disco solar pode captar a luz solar e concentrá-la em um ponto, onde deverá ter um sistema para passagem da água, que será aquecida a alta temperatura, promovendo a sua desinfecção. É um processo de baixo custo, que utiliza energia renovável, ocupa pouco espaço, não consome reagentes químicos e precisa de pouca manutenção – explica Cristina, lembrando que nas comunidades rurais o equipamento poderia ser utilizado para tratar a água a ser consumida no próprio local de uso, melhorando assim a qualidade de vida das populações e evitando problemas com enfermidades hídricas.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Multiplicando conhecimentos sobre toxoplasmose

Estudos mostram que o município de Campos dos Goytacazes apresenta uma das mais altas prevalências de Toxoplasma gondii, o protozoário causador da toxoplasmose. A população mais atingida é a de baixo poder aquisitivo, que se contamina, na maioria dos casos, através da ingestão de água proveniente de poços artesanais, riachos e lagoas da região. A falta de informação está na raiz do problema.

Para tentar mudar esta realidade, pesquisadores da UENF realizaram o projeto de extensão “Multiplicadores de Conhecimentos Científicos em Toxoplasmose: Um Relato de Experiência com Estudantes de Ensino Médio de Escolas Públicas de Campos dos Goytacazes”, cujo relato de experiência está na atual edição da Revista de Extensão UENF “Estendendo conhecimento para o bem-estar social”. 

O público-alvo foram estudantes de ensino médio na faixa etária dos 15 a 18 anos, de cinco escolas de Campos: Centro Integrado de Educação Pública ou Ciep da Lapa (CIEP), Liceu de Humanidades de Campos (LICEU), Escola Técnica Estadual João Barcelos Martins (ETEJBM), Escola José Francisco Salles (EJFS) e Instituto Federal Fluminense (IFF).

Muitos demonstraram não possuir qualquer conhecimento sobre o que é a toxoplasmose, bem como sobre suas formas de contágio —  ingestão de carnes cruas ou mal cozidas, consumo de água ou alimentos contaminados e infecção transplacentária.

O artigo tem a assinatura das professoras Lílian Maria Garcia Bahia de Oliveira (UFRJ) e Alba Lucínia Peixoto Rangel (UENF), além dos bolsistas Rhônia França Gomes Rosa (mestre em Biociências e Biotecnologia), Rebeka da Conceição Souza (Graduada em Ciências Biológicas), Larissa Farias Crispino (Graduada em Ciências Biológicas), Cíntia Alves Cardoso (Licenciada em Biologia), Flávia Pereira Vieira (Doutora em Biociências e Biotecnologia) e Maycon Bruno de Almeida (Mestre em Biociências e Biotecnologia).