sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Coluna Nutrição: Alimentação e festas de fim de ano






Alimentação e festas de fim de ano


Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira*



Panetone engorda? Cerveja e rabanada aumentam a “gordura da barriga”? Existe dieta desintoxicante? Estas são algumas dúvidas muito comuns em festas de fim de ano, temas recorrentes em revistas populares, telejornais, e, claro, não poderíamos deixar de comentar aqui no blog Ciência UENF.

Não existe alimento que engorda, nem que emagrece. O que leva um indivíduo a ganhar ou perder peso é o desequilíbrio energético diário. Para entender melhor o que isso significa, suponhamos que um indivíduo necessite de uma quantidade diária de energia de 1500 Kcal. Se ele comer somente uma fatia de panetone (270 Kcal), a quantidade de energia obtida ainda será inferior ao que ele necessita. Entretanto, se além do panetone este mesmo indivíduo ingerir duas fatias de rabanada (477 Kcal), duas latas de cerveja de 350ml (286 Kcal), uma porção de castanha portuguesa (95 Kcal/50g), duas fatias grossas de peito de chester (99Kcal/100g), duas colheres de servir de arroz (128 Kcal/100g) e duas colheres de sopa de farofa simples (111 Kcal/porção de 30g), isso totalizará 1608 kcal. Observe que o somatório energético é superior ao que o indivíduo necessita diariamente, e provavelmente, haverá pequeno ganho de peso corporal. Portanto, não será o panetone, nem nenhum dos alimentos citados anteriormente que o engordará, mas sim o conjunto dos alimentos que ele ingeriu no dia.
               
Muitas vezes, o ganho de peso corporal devido à ingestão excessiva de alimentos em único dia não é percebido. Por exemplo, se uma pessoa diariamente ganha 66g de gordura (quantidade imperceptível) sem haver compensação, no final do mês ele terá engordado três quilos. A perda de peso não necessariamente envolve só a gordura, mas sim proteínas corporais (ex. músculos) e água. Quem faz restrição alimentar exagerada perde gordura corporal e músculos também. O ganho de peso pode estar associado à hidratação, aumento dos músculos e excesso de gordura corporal. No caso de indivíduos sedentários e sem alimentação equilibrada, o excesso de gordura é mais comum, e se diz que ele engordou.           

Em relação às bebidas alcoólicas, não existe comprovação científica da relação direta entre consumo de cerveja, por exemplo, e aumento de gordura abdominal. Mesmo assim, o álcool deve ser evitado. Ingerir bebidas alcoólicas em excesso e em longo prazo contribui para o surgimento de câncer de boca, esôfago, laringe, faringe, cirrose e outras doenças.  Estas bebidas também contribuem para desidratação pela elevada formação de urina, que resulta em dor de cabeça e mal estar (ressaca). Para amenizar este efeito desidratante do álcool, é aconselhável bastante ingestão de água. A cor da urina, normalmente tida como referência para verificação do estado de hidratação (cor clara indica boa hidratação), não pode ser utilizada quando se consome excesso de bebida alcoólica. O álcool faz com que a urina fique clara, mesmo que o indivíduo esteja desidratado. Normalmente, quando se ingere pouco líquido, a urina tende a ficar mais concentrada, e, portanto, amarelada.           

Devido ao consumo excessivo de alimentos, são elaboradas dietas com a promessa de que desintoxicam, ou que promovem a limpeza do corpo. Isto também é um mito. Estas dietas são ricas em antioxidantes, substâncias que não possuem capacidade de limpar o organismo, mas sim de reduzir a formação de substâncias que danificam as células por reação de oxidação, ou neutralizá-las. Reações deste tipo ocorrem a todo o momento, em qualquer ser vivo e durante a vida inteira, e não somente em humanos durante festas de fim de ano. Por isso, é recomendado estar sempre hidratado, consumir vegetais diariamente e evitar alimentos com elevado teor de gordura, carboidrato e sal (rever matéria “alimentação adequada” neste blog). Muitos tipos de dietas são criados sem respaldo científico, e muitas vezes, por serem muito restritivas, exigem muita mudança do hábito alimentar repentinamente. Práticas assim dificilmente são sustentadas. O indivíduo abandona cedo, e normalmente retorna ao peso anterior. Segundo o Conselho Nacional de Saúde dos EUA, 95% das pessoas que seguem dietas sem educação nutricional retornam ao peso anterior à dieta em até cinco anos.                                         

Os alimentos secos, como castanhas, nozes e amêndoas, são muito nutritivos. O vinho, embora contenha álcool, se consumido moderadamente, é benéfico à saúde, pois é rico em substâncias antioxidantes (ex. resveratrol).             

Por fim, não deixe de consumir o que deseja, mesmo que seja rabanada ou sorvete. A estratégia é intercalar ou combinar a ingestão destes alimentos com frutas e outros vegetais disponíveis na ceia, que podem até reduzir seu apetite. Consulte um nutricionista, que, entre outras coisas, lhe informará a sua necessidade energética diária, pois isto varia entre os indivíduos. Também por isto, as dietas jamais devem ser copiadas.

Boas festas!

* Doutorando e professora do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF

Matemática divertida

Renata e o jogo que criou para ajudar no aprendizado de matemática
Para muitos alunos do ensino fundamental, a matemática pode parecer a grande vilã dos estudos. Mas, quando a aprendizagem é feita de forma lúdica, os números podem ser vistos como amigos e as operações matemáticas podem se tornar mais fáceis e divertidas.  É o que vem acontecendo com os alunos do 8º ano do Centro Integrado de Educação Pública Maria Aparecida Lima Souto Tostes, na cidade de Miracema, no Estado do Rio de Janeiro, que este ano puderam aprender a divisão através de um jogo criado pela professora Renata Nalim Basilio Tissi.

— Esse jogo surgiu pela necessidade de fazer com que os alunos pudessem aprender a dividir. Alguns possuem dificuldades com este tipo de operação e o jeito foi tentar criar algo que diminuísse tal dificuldade — conta a professora.

Renata é licenciada em Matemática pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atualmente cursa Ciências Biológicas pela UENF através do Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj). Criado em 2000, o consórcio Cederj leva educação superior gratuita e de qualidade a todo Estado do Rio de Janeiro através de sete instituições: UENF, Cefet, Uerj, UFF, UFRJ, UFRRJ e Unirio. Além da licenciatura em Ciências Biológicas, a UENF também oferece licenciatura em Química no âmbito do Cederj.

— O ensino a distância é realmente ótimo pra mim, pois não preciso me afastar da família e ainda tenho uma graduação gratuita e de qualidade — afirma Renata.

A ideia de criar outras formas de aprendizagem vem desde a faculdade, onde participou do projeto ‘Os conceitos da Etnomatemática nos Jogos Infantis’. A partir daí, ela percebeu a importância da atividade lúdica em sala de aula e começou a colocar suas ideias em prática logo no início da docência.

— Atividades lúdicas fazem com que os alunos aprendam mais, pois eles estão trabalhando com o concreto. Sabemos que trabalhar algo abstrato nos assusta; o lúdico é mais atraente e motivador — diz Renata.

Segundo Renata, o jogo matemático criado este ano ajudou a turma do 8º ano do Ensino Fundamental a superar as dificuldades com o cálculo e ainda trabalhou concentração e tolerância. Além disso, as peças são feitas com garrafas PET e outros materiais reutilizáveis, o que estimulou a consciência ambiental dos alunos.

— Tem gente que acha que Matemática não tem relação com Biologia, mas tudo está ligado — afirma.

A interdisciplinaridade está sempre presente nos projetos de Renata, que já possui uma parceria com a professora de Ciências Iolanda Oliveira na escola em que leciona. Juntas, elas realizaram o projeto ‘Pare, Pense e Recicle’, através do qual incentivaram a coleta seletiva junto aos alunos.  Renata conta que a união é um incentivo a seguir com o curso de Ciências Biológicas e ir adiante na área acadêmica.

— Pretendo dar continuidade aos estudos e a UENF pesa bastante na decisão, pois fica a duas horas de distância da minha cidade e me oferece a possibilidade de cursar uma pós-graduação.

Rebeca Picanço

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O PIB regional, parte por parte


Alcimar das Chagas: raio-x da economia regional
Os royalties representaram quase 57,74% do orçamento de Campos dos Goytacazes (RJ) em 2011, mas a dependência dos recursos do petróleo vem diminuindo. É o que afirma o economista Alcimar das Chagas Ribeiro, pesquisador do Laboratório de Engenharia de Produção da UENF, que acaba de lançar a edição revisada do livro "A Economia Norte Fluminense - análise da conjuntura e perspectivas". Nesta entrevista exclusiva ao Blog Ciência UENF, o pesquisador revela que, apesar das obras de implantação do Superporto do Açu, em São João da Barra, o comércio daquele município teve saldo negativo na oferta de empregos nos primeiros dez meses de 2012. Ao avaliar as transformações no cenário econômico do Norte Fluminense, Alcimar mostra que, em 2009, Campos representava 61% do Produto Interno Bruto (PIB) regional, enquanto Macaé respondia por 22%. Confira a entrevista na íntegra: 

Blog Ciência UENF: O que acontecerá com o orçamento de Campos se os royalties deixarem de ser pagos aos municípios produtores de petróleo?

Alcimar: As receitas provenientes de royalties de petróleo em Campos dos Goytacazes, no valor de R$ 1,2 bilhão, representaram proporcionalmente 57,14% das receitas correntes totais de R$ 2,1 bilhões em 2011. Entretanto, é importante observar que esse nível de dependência é decrescente ao logo dos anos. Em 2008 era 70,0%, caiu para 68,88% em 2009 e chegou a 57,74% em 2010. Apesar da trajetória de declínio, a parcela de royalties é ainda expressiva, e a sua subtração acarretaria prejuízos substanciais, já que o nível de investimento em torno de 19% das receitas correntes no município é bem razoável. Especificamente a saúde seria prejudicada, já que Campos funciona com polo receptor de pacientes dos menores municípios do seu entorno. Campos também vem recebendo uma forte pressão populacional em função do projeto do porto do Açu, e tais demandas sociais exigem investimento em infraestrutura. Naturalmente, a alternativa para redução da dependência orçamentária passa pelo fortalecimento das atividades econômicas internas, de forma que as receitas próprias alcancem um patamar mais representativo. Essas medidas, entretanto, dependem de uma maior interação entre governo, setor produtivo e universidade, já que a base dos rendimentos crescentes é a inovação, que por sua vez depende de conhecimento científico.

Blog Ciência UENF: O comércio de Campos dá sinais de vitalidade, mas parece carecer de uma base econômica estável e robusta. O que de fato acontece nesse terreno?

Alcimar: É necessário reconhecer que o sistema econômico na região Norte Fluminense, com exceção de Macaé, que é sede da estrutura física do setor petrolífero, é muito frágil. Especialmente Campos dos Goytacazes apresenta um sistema econômico de perfil sazonal. Movimenta a construção civil a partir de investimentos públicos e privados, cujo ciclo é de curto e médio prazo, e depende da atividade açucareira em declínio. No período de safra, a atividade gera muitos empregos no contexto da cadeia produtiva que envolve: agricultura, processamento, serviços e comércio. Mas ao final da safra o mesmo emprego desaparece. A base de sustentação da economia tem um respaldo muito forte na renda do serviço público. Existe um conjunto de instituições governamentais (federais e estaduais) que geram um padrão de renda muito importante. Outro grupo também relevante, em termos de renda, concentra os profissionais liberais e empresários de maneira geral. Essa situação não é tão cômoda, já que acaba por concentrar fortemente a renda e aprofundar a pobreza no município. A indução à geração de negócios produtivos garante a geração de emprego formal e a renda para as outras classes assalariadas, amortecendo o desequilíbrio hoje observado. Campos é cidade importadora de bens e serviços, ou seja, contribui para a geração de emprego fora. É necessário romper com essa dependência.

Blog Ciência UENF: Como o Complexo do Açu vai transformar a economia regional?

Lançamento dia 12/12, às 19h, em SJB
Alcimar: As obras do porto do Açu começaram no final de 2007, e já foram gastos em torno de R$ 2,6 bilhões. Aproximadamente 40 empresas atuam na retroárea do porto, desenvolvendo diversas atividades demandas pelo projeto. Toda essa movimentação não foi capaz de dinamizar a economia local. O emprego no comércio de São João da barra é negativo neste ano. De janeiro a outubro de 2012, o comércio local admitiu 261 trabalhadores e demitiu 280, destruindo 19 vagas de emprego. Voltamos aqui com a tese da dependência. Investimentos de fora para dentro, especialmente os baseados em recursos naturais, trazem ocupações incompatíveis com aquelas a que estamos acostumados. São atividades baseadas em conhecimento que exigem qualificações mais sofisticadas. Como sabemos, nossa mão-de-obra tem baixa qualificação e sobra nesse processo. Assim, a chegada de trabalhadores de outros estados e o aumento populacional geram externalidades negativas, como a especulação imobiliária e a pressão inflacionária que empobrece ainda mais a população local. Esse momento precisa de muita reflexão e comprometimento dos gestores públicos. Quanto à cidade de Campos, vem se beneficiando em função de sua infraestrutura econômica e social mais robusta e mais adaptada às exigências da população que chega com um maior padrão de exigência.

Blog Ciência UENF: O senhor acaba de lançar o livro “Economia Norte Fluminense – Análise de conjuntura e perspectivas”.  O Noroeste Fluminense entra na abordagem do livro? Que impactos o complexo do Açu poderá ter na região vizinha?

Alcimar: O livro por enquanto não estuda a região Noroeste. Entretanto os nossos planos são ambiciosos, e brevemente poderemos atuar no contexto do Estado. Quanto à região relacionada ao porto, posso dizer o seguinte: o complexo portuário do Açu em funcionamento exigirá a contratação de mão-de-obra especializada. São processos densos em tecnologia e, como já relatei, muito distantes das nossas experiências. Assim, teremos a importação de mão-de-obra, e a riqueza gerada será substancial; porém não existem garantias de absorção das externalidades positivas por essas populações. A questão da inserção automática é um problema. Aliás, temos o exemplo de Macaé bem próximo de nós. A experiência com petróleo já dura pelo menos 35 anos e, como podemos ver, não resolveu o problema de subdesenvolvimento desse território. Macaé apresenta problemas graves no contexto de toda riqueza gerada.

Blog Ciência UENF: Quantos por cento do PIB (Produto Interno Bruto) do Norte Fluminense estão em Campos e que fatia dele está em Macaé?

Alcimar: Em 2009 o município de Campos dos Goytacazes contabilizou um PIB de R$ 19,6 bilhões, com uma participação percentual de 61% do PIB total da região. Já Macaé contabilizou um PIB de R$ 7,0 bilhões, com participação de 22% do PIB da região.

Blog Ciência UENF: Se fossem abstraídas as plataformas no mar, o que restaria do PIB de Campos?

Alcimar: O que posso afirmar a esse respeito é que o PIB industrial em Campos, segundo IBGE em 2009, somou R$ 14,2 bilhões ou 72,79% do PIB total no valor de R$ 19,5 bilhões. A agropecuária somou R$ 153,9 milhões, e os serviços somaram R$ 4,7 bilhões. No caso da subtração do petróleo, é evidente que uma parcela substancial do PIB industrial desapareceria, e o setor predominante seria o de serviços.

Ana Clara Vetromille
Gustavo Smiderle


Leia também:

Concentração regional do PIB entre municípios volta a avançar (O Globo On-Line, 12/12/12)


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Coluna Nutrição - Beterraba



 Beterraba

Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda*

A beterraba é uma raiz tuberosa que pode apresentar duas colorações: branca, da qual se extrai o açúcar; e vermelha, que é utilizada na alimentação. A de cor vermelha é a mais comercializada no Brasil, cultivada principalmente nas regiões Sudeste e Sul.

É um alimento de baixo valor energético, possuindo teores insignificantes de proteínas, lipídios e moderados de carboidratos. Dentre os carboidratos, possui açúcares — que lhe conferem o sabor adocicado — mas, como estão em pequena quantidade, não apresentam riscos aos diabéticos. Possui também elevados teores de ácido fólico, potássio, e manganês.

A ingestão adequada de ácido fólico é importante para prevenir aterosclerose, problemas de má formação fetal, anemia, depressão e demência. O consumo de manganês ajuda a prevenir a osteoporose, má formação do esqueleto, intolerância a glicose e epilepsia. E a ingestão de potássio contribui, principalmente, para prevenir problemas cardiovasculares, “pedras” nos rins (litíase renal), problemas nos ossos e acidente vascular cerebral (AVC). Estudos mostram que o potássio, em quantidade adequada na alimentação (4g/dia), atua na redução da pressão arterial.


Sua cor vermelho-arroxeada é devido à presença de betacianinas, pigmentos hidrossolúveis que, além de fornecer coloração à raiz, também são importantes substâncias antioxidantes, atuando na prevenção de alguns tipos de câncer. A concentração dos pigmentos varia com o tipo e condições de cultivo, época de colheita e tamanho das raízes. Como os pigmentos são solúveis em água, os processos de lavagem e enxágüe após o corte contribuem significativamente para a sua perda.Estudos para manter a estabilidade destes pigmentos ainda precisam ser realizados visando a reduzir esta perda e preservar, assim, teores elevados destes antioxidantes naturais em beterrabas minimamente processadas.

Recentemente, foi demonstrado que a aplicação de ácido cítrico ao produto processado auxiliou na conservação destes pigmentos durante o armazenamento de beterraba minimamente processada. Os pigmentos ou corantes têm despertado especial interesse pela sua importância na indústria de alimentos. No caso de oferecerem menos riscos à saúde humana, poderão vir a substituir os corantes sintéticos, principalmente os que são questionados quanto a possíveis reações alérgicas. Seu emprego pode ser feito em sorvetes, iogurtes e alimentos que recebam tratamento térmico mínimo durante seu processamento.

Além de corante, também atua como conservante. No entanto, devido à presença de alguns compostos nitrogenados, como por exemplo nitratos e nitritos utilizados como conservantes em presunto, mortadela, salsicha e outros derivados cárneos, são capazes de reagir com estes pigmentos e formar compostos com ação carcinogênica. Por isso, coccionar a beterraba por 15 minutos e prosseguir com o descarte desta água ajuda a reduzir muito o teor de compostos nitrosos nestes alimentos. Posteriormente, é possível continuar o cozimento da beterraba normalmente. 

Devido à coloração vermelha, a beterraba tem sido equivocadamente considerada rica em ferro e utilizada no combate à anemia. Mas o teor de ferro presente na beterraba é similar ao encontrado em outros tubérculos, ou seja, quase zero.



* Professora e doutorando do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lançado o milho pipoca UENF-14

Com capacidade de expansão e rendimento acima do recomendado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a cultivar de milho pipoca UENF-14 foi lançada oficialmente na manhã desta quarta-feira, 05/12, no Colégio Agrícola Antônio Sarlo. Adaptada às características da região, a cultivar é fruto de 14 anos de trabalho dos pesquisadores do Laboratório de Melhoramento Genético Vegetal (LMGV) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da UENF.

Segundo o professor Antônio Teixeira do Amaral Júnior, que coordena as pesquisas, a cultivar UENF-14 apresenta produtividade de 3.047 quilos por hectare e capacidade de expansão de 35,69 mililitros por grama — enquanto a base para o lançamento de uma nova cultivar, determinada pelo Mapa, é de um mínimo de 3 mil quilos por hectare e capacidade de expansão de pelo menos 30 mililitros por grama.

— O UENF-14 ainda é melhor do que os híbridos com as quais competiu em ensaios feitos no Norte (Campos dos Goytacazes) e Noroeste (Cambuci e Itaocara) Fluminense. Trata-se, pois, de material bastante competitivo, tendo vencido materiais considerados muito bons como o IAC-112. Importa detalhar que a UENF-14 é variedade de polinização aberta, portanto o agricultor poderá reutilizar as sementes para fazer novo plantio — disse.

Os professores Henrique Duarte Vieira, Alexandre Pio Viana e
Antônio Teixeira do Amaral Júnior fizeram o lançamento
oficial da nova cultivar de milho pipoca

A cerimônia de lançamento contou com a presença de um grupo de pequenos produtores rurais da região, que assistiram às explanações dos pesquisadores sobre o milho UENF-14. O professor Messias Gonzaga Pereira fez um histórico das pesquisas, lembrando que tudo começou com a vinda para a UENF do professor alemão Joachim Friedrich Wilhelm Von Büllow, da Universidade de Brasília (UnB), nos primeiros anos da UENF. Ele trouxe para a UENF a cultivar UNB-2, que, catorze anos mais tarde, daria origem ao UENF-14. Também participaram da apresentação do milho UENF-14 os professores Alexandre Pio Viana, José Oscar Gomes de Lima e Silvaldo Felipe da Silveira, além do diretor do CCTA, Henrique Duarte Vieira.

— A grande vantagem desta variedade de milho pipoca é que ela foi desenvolvida para a região. Estamos dando ao produtor mais uma opção de cultura, num lugar que antes só tinha cana. É a UENF cumprindo um de seus papeis, que é o de contribuir para o desenvolvimento regional — disse o diretor do CCTA, Henrique Duarte Vieira, acrescentando que as sementes deverão ser disponibilizadas nas lojas especializadas já no próximo ano agrícola.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Plantas medicinais

Glória, no 'Café com Ciência': respeito ao conhecimento popular
Como parte do Laboratório de Fitotecnia (LFIT) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA), o setor de Plantas Daninhas e Medicinais desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão com plantas classificadas nas categorias “daninhas” e “medicinais, condimentares e aromáticas”, visando desenvolvimento de subsídios científicos de interesse ao manejo agrícola.
A engenheira agrônoma Glória Cristina da S. Lemos é responsável pela supervisão da linha de pesquisa “Manejo de culturas, plantas daninhas e medicinais”, e explica que as plantas medicinais são uma das categorias das plantas bioativas, sendo aquelas que apresentam alguma ação terapêutica sobre humanos ou animais.

- Quando a atividade biológica de uma planta sobre outros organismos, inclusive sobre plantas, resulta da liberação direta dos princípios ativos no ambiente, então podem ser classificadas como alelopáticas, cujo interesse de uso geralmente é biocida – diz Glória, que participou, em 22/11/12, da segunda edição do “Café com Ciência”, que promove o encontro entre cientistas e jornalistas, na UENF.

A linha de pesquisa é coordenada pelo professor Silvério de Paiva Freitas, atual reitor da UENF, de cuja equipe também participam bolsistas de graduação, de pós-graduação e da Universidade Aberta.

Etapa no processamento do material em laboratório
Em cerca de dez anos de pesquisa foram desenvolvidos 14 projetos. Dentre eles destacam-se “Estudo de plantas bioativas para sustentabilidade agroambiental com Eupatorium maximilianii Schrad”, “Interações plantas bioativas e ambiente”, “Tecnologias de baixo impacto ambiental para produção vegetal de interesse para biocombustível” e “Manejo orgânico de capim-limão”. Todos reúnem subsídios que apoiam as produções científicas e o desenvolvimento de atividades sustentáveis que envolvem a produção vegetal.

Os grupos de plantas estudadas são divididos de acordo com os fatores mercadológicos e de manejo. Segundo Glória, muitas plantas medicinais também são utilizadas como matéria-prima para diversos produtos, de modo que uma mesma espécie vegetal pode ser classificada em diversos categorias conforme sua finalidade de estudo ou de exploração econômica.

- O eucalipto, por exemplo, é muito utilizado nas indústrias de madeira, papel e aromatizantes, além das indústrias farmacêuticas – diz Glória, afirmando que cerca de 25% dos medicamentos farmacêuticos convencionais apresentam princípios ativos de origem vegetal.

A pesquisa também abrange projetos de extensão desde 2005, quando foi inaugurado o “Herbário Vivo – Horto Medicinal Orgânico: Interando Comunidade e Universidade”, que implantou uma coleção de plantas medicinais e se desenvolveu junto às comunidades rurais das regiões norte/noroeste do Estado do Rio de Janeiro, apoiando a agricultura familiar visando melhorias na qualidade de vida do agricultor.

- A inclusão da agricultura familiar nos arranjos produtivos norteia as políticas públicas brasileiras relacionadas a plantas medicinais, principalmente nas comunidades de assentados da reforma agrária – afirma Glória, que reconhece a importância do conhecimento popular e critica a forma como o assunto é abordado na mídia. Em sua opinião, muitos veículos de comunicação mostram os benefícios das plantas, mas não trazem explicações mais elaboradas; ou às vezes tratam informações de origem tradicional de forma alarmante, o que pode desagregar o patrimônio cultural de grupos sociais com valores conservados, que também são alvo das políticas mundiais sobre plantas medicinais para a ciência e o bem-estar social.

Rebeca Picanço

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Coluna 'Nutrição' - Arroz

 


Arroz

Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira*

O arroz é um dos cereais mais produzidos e consumidos no mundo, e o Brasil está entre os seis países com maior produtividade mundial. O país alcançou, no ciclo de 2010 e 2011, recorde absoluto de produção em toda a sua história, totalizando 17 milhões de toneladas.

Ainda que a produção tenha aumentado, o consumo de arroz no Brasil está diminuindo. Segundo o IBGE, o consumo per capita de arroz caiu pela metade nos últimos 15 anos (de 30 para 14,9kg de arroz). A redução independeu de faixa de renda, Estado, zona urbana ou rural. O governo brasileiro deduz que a mudança de padrão de vida e de hábitos alimentares, com menor ingestão de carboidratos e maior de gorduras e proteínas, pode ser a principal explicação para este fato.

O arroz é constituído principalmente de amido (carboidrato) e quantidades menores de lipídios, proteínas, fibras, minerais e vitaminas. A quantidade de cada nutriente no arroz varia, principalmente, de acordo com o processamento industrial, sendo o integral mais nutritivo do que os mais processados (polido e parboilizado). Quanto mais processado, mais o arroz perde suas camadas externas, onde há maior quantidade de proteínas, lipídios, fibra, minerais e vitaminas, enquanto o centro é rico em amido. Dessa forma, o descascamento total que resulta no arroz branco, ou descascamento parcial que resulta no arroz parboilizado, diminui o teor de nutrientes, exceto de amido, originando as diferenças na composição entre o arroz integral e o polido.


Por ser constituído principalmente de carboidrato (em torno de 79%), o arroz é um alimento muito energético. Cem gramas de arroz branco cozido, por exemplo, fornece 26% da quantidade de carboidrato recomendada com base numa dieta de 2000 Kcal. E energia, na quantidade certa, é essencial para a sobrevivência dos seres vivos. Inclusive, quem pratica exercício físico regularmente não pode restringir carboidrato da alimentação, pois isto pode ser prejudicial à saúde. Os diabéticos também devem ingerir carboidratos, desde que tenham acompanhamento médico e nutricional, realizando o controle da glicemia e contagem de carboidratos das refeições.

Além disso, o hábito do brasileiro de consumir arroz com feijão é bastante saudável, pois os aminoácidos encontrados em pouca quantidade nas proteínas do feijão (os sulfurados, metionina e cisteína) aparecem em em maior quantidade nas proteínas do arroz. Por sua vez, o arroz é pobre em aminoácido lisina, composto que existe em maior quantidade no feijão. Por isso a dobradinha arroz e feijão é muito nutritiva.  A proporção recomendada é: três partes de arroz para uma de feijão.

Abaixo apresentamos a a informação nutricional de arroz correlacionada às recomendações diárias de nutrientes e à medida caseira correspondente.



* Doutorando e professora do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF.


REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDUSTRIAS DE ARROZ PARBOILIZADO. Anuário de Arroz 2012. Acessado em: http://www.abiap.com.br/site-pt/content/anuario_arroz_2012/index.php. Data de acesso: novembro de 2012.

WALTER M, MARCHEZAN E, AVILA LA. Arroz: composição e características nutricionais. Ciência Rural. 38(4) 2008. 1185-92.

BRASIL. Centro de socioeconomia de planejamento agrícola. Rizucultura brasileira. Disponível em http://cepa.epagri.sc.gov.br/Informativos_agropecuarios/arroz/Arroz_10.03.2011.pdf. Data de acesso: nov 2012.

STORCK, C.R. Variação na composição química em grãos de arroz submetidos a diferentes beneficiamentos. 2004. 108f. Dissertação (Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos) – Curso de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal de Santa Maria.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Coluna 'Um quê de Neurociência'



Especialização hemisférica: afinal, temos um ou dois cérebros?


Arthur Giraldi Guimarães*



Somos animais de simetria bilateral. Isso significa que podemos dividir o nosso corpo em dois lados simétricos, o lado direito e o lado esquerdo, sendo um o espelho do outro. Essa simetria não é perfeita e existem exceções, como o coração, que tem dois terços da sua estrutura no lado esquerdo, os pulmões, onde o esquerdo é menor que o direito (justamente para dar espaço para o coração), e etc...

Figura 1 - (A) Temos dois cérebros? Cada hemisfério tem especialização de funções cognitivas que conferem a cada um uma forma específica de "ver o mundo". (Imagem extraída de: Forest Azuaron). (B) Vista superior do cérebro humano, mostrando seus dois hemisférios. Estão colocadas as principais especializações de cada hemisfério, algumas bem confirmadas e outras ainda em debate. (Imagem extraída do livro "Cem Bilhões de Neurônios - Lent, 2002")

Mas a simetria é a regra. Isso obviamente vale para o nosso Sistema Nervoso Central, incluindo o nosso cérebro. Ele é dividido em dois hemisférios, o direito e o esquerdo (figura 1). Eles são bastante simétricos, tanto do ponto de vista anatômico como funcional. Entretanto, já está muito bem estabelecido que eles não funcionam de forma totalmente igual. Na verdade, eles apresentam especializações quanto a algumas funções cognitivas, funcionando de forma distinta (figura 1). Isso faz os neurocientistas se questionarem: temos um ou dois cérebros? Os hemisférios cerebrais cooperam ou competem entre si? Qual a contribuição e relevância de cada hemisfério para a consciência? Como a unidade da nossa consciência é possível? Sim, afinal temos apenas uma, certo? Será?

Estas são algumas das principais questões científicas dos pesquisadores que investigam uma importante área da Neurociência: a lateralização e especialização cerebrais. Um exemplo de função lateralizada é amplamente conhecido há bastante tempo: a preferência por uma das mãos ou por uma das pernas, em função deles terem maior habilidade motora para escrever ou fazer embaixadinhas com uma bola, respectivamente. Daí o conceito de "destro" ou "canhoto".

Sistemas sensoriais, como visão e tato, bem como o sistema motor, apresentam controle cruzado. Ou seja, a percepção consciente do lado esquerdo do campo sensorial e o controle voluntário dos músculos esqueléticos do lado esquerdo do corpo são feitos pelo hemisfério direito, e vice e versa. Assim, no caso do comando motor, existe uma maior habilidade de controle em um dos hemisférios. Essa maior habilidade em um dos lados também existe para outras funções cognitivas importantes. E é a isso que se denomina especialização hemisférica.

Figura 2 - (A) Corte coronal do cérebro mostrando, no detalhe, a passagem de axônios de um hemisfério para o outro. (Imagem extraída e modificada de: A.D.A.M.). (B) Imagem de ressonância nuclear magnética de um encéfalo normal, mostrando a vista lateral do encéfalo (corte óptico feito na linha média, limite entre os lados direito e esquerdo). As setas vermelhas mostram o corpo caloso. (C) Imagem de ressonância nuclear magnética de um paciente que sofreu a calosotomia, com remoção total do corpo caloso. (Imagens B e C extraídas e modificadas de: Epilepsia).


A origem dos estudos sobre a especialização hemisférica é antiga, mas eles tiveram importante impulso a partir de 1960, com os estudos dos neurocientistas Roger Sperry e Michael Gazzaniga. Esses estudos, que duram até hoje, foram e são feitos com pacientes que sofreram calosotomia, que é a remoção cirúrgica do corpo caloso (figura 2). Estes pacientes são conhecidos como “split brain” (cérebro dividido). Essa cirurgia é feita como último recurso para epiléticos onde outras intervenções não tiveram resultado, e tem o objetivo de evitar que a onda epilética passe de um hemisfério para o outro, reduzindo o seu efeito.

O corpo caloso é uma estrutura formada por axônios de neurônios localizados num hemisfério cerebral e que cruzam a linha média e fazem sinapses com neurônios localizados no outro hemisfério (figura 2). Portanto, é a principal estrutura responsável por fazer a comunicação entre os dois hemisférios. Qualquer informação que parta de um hemisfério só pode ser enviada até o outro através do corpo caloso.

Os estudos do Gazzaniga, junto com os de outros pesquisadores, demonstraram de forma inequívoca que cada hemisfério apresenta sua forma específica de processar as informações que recebe. Numa pessoa normal (com o corpo caloso) os hemisférios trocam as informações, sendo o processamento então integrado. Entretanto, no paciente “split brain” essa troca não ocorre, e assim pode-se estudar como cada hemisfério “trabalha” independentemente (figura 3).

Figura 3: Exemplo de estudo com os "split brain". (A)  No caso da visão, podemos traçar uma linha imaginária vertical, dividindo o campo visual em lado direito e lado esquerdo, ambos de mesma dimensão. O lado direito do campo visual é transmitido para o hemisfério esquerdo pelas vias visuais, sendo lá processado. E vice e versa. Nos pacientes “split brain”, objetos localizados no campo esquerdo são processados no lado direito, mas a informação não é passada para o lado esquerdo, pela falta do corpo caloso, e vice e versa. Os estudos com estes pacientes mostram que eles não conseguem identificar ou descrever verbalmente objetos que são colocados no seu campo visual esquerdo (sendo então processado no hemisfério direito), mas sim objetos colocados no campo visual direito. Isso é uma prova de que a especialização para o processamento da fala, que permite que algo seja descrito verbalmente, está localizado no hemisfério esquerdo (Imagem extraída e modificada de: Psicologia Previtali). (B) Quando é pedido ao paciente que reconheça tatilmente com a mão esquerda o objeto descrito pela palavra exposta no seu campo visual esquerdo (ambos controlados pelo hemisfério direito), ele identifica e segura o objeto correto, apesar de não conseguir verbalizar o que está segurando ou lendo. (Imagem extraída de: Gazzaniga et al., 2006).

Os estudos com pacientes “split brain” ajudaram muito na caracterização das diversas especializações que cada hemisfério apresenta (figura 1). Por exemplo, o hemisfério esquerdo é o que controla a fala e os aspectos gramaticais (conjunto de regras para o uso de uma língua) e semânticos (significado de símbolos e palavras) da linguagem. Isso explica porque pacientes de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou traumatismo no lado esquerdo do cérebro tendem a apresentar sérios déficits de fala e/ou compreensão da fala, ao contrário daqueles afetados no lado direito. Como raras coisas em biologia são "tudo ou nada", as exceções existem, e poucas pessoas (menos de 4%) possuem essa especialização no hemisfério direito.

Já o hemisfério direito é o principal responsável pelo processamento de outro aspecto igualmente importante na comunicação verbal: a prosódia (as variações de entoação, o ritmo e intensidade que são usadas na fala). Ela é tão importante para a comunicação verbal quanto à gramática e à semântica. Afásicos por lesão do hemisfério esquerdo perdem a compreensão semântica da fala, mas mantêm a capacidade de perceber a prosódia (e até a amplificam com o tempo).

Por isso, é dificílimo enganar pela "lábia" um paciente desse, pois ele percebe com mais precisão se uma pessoa que fala está sendo sincera ou está mentindo. A prosódia da fala, expressa involuntariamente pelo falante, entrega o mentiroso, e o afásico percebe isso bem melhor do que uma pessoa com os dois hemisférios íntegros! Esse fato é interessantemente relatado num dos contos do neurologista Oliver Sacks ("O Discurso do Presidente"), em seu livro O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu (leitura obrigatória para quem gosta de Neuro!).

Uma possível explicação para as especializações hemisféricas pode ser evolutiva. Pode ser que acabar com a "disputa" de comando entre os hemisférios, colocando comandos específicos em apenas um deles, confira uma vantagem adaptativa. Isso pode propiciar economia de energia e maior eficiência na execução de algumas funções cognitivas de valor adaptativo. Por exemplo, no caso da linguagem, talvez seja melhor para o comando da fala colocá-lo apenas no hemisfério esquerdo. Se os dois lados tivessem igual poder de comando, poderia gerar conflitos. De fato, parece que é justamente essa a origem de problemas da fala, como a gagueira.

Estudos têm mostrado que, ao contrário de pessoas com fala normal, os gagos não apresentam a especialização para o processamento da compreensão fonética (de palavras faladas) no hemisfério esquerdo. Nos gagos, ambos os hemisférios respondem por isso. E isso é observado não só em adultos, mas também em crianças em idade pré-escolar, justo no período onde a gagueira começa a se estabelecer. Isso sugere que a gagueira pode mesmo ser consequência dessa falta de especialização hemisférica do processamento da fonética, e não o contrário (a falta de especialização como consequência da gagueira, o que também poderia ser possível).

Para finalizar esta prosa, é óbvio que os hemisférios cooperam entre si para produzir a percepção integrada dos sentidos e para gerar respostas cognitivas coordenadas. Enfim, gerando uma consciência unificada. Entretanto, evidências mostram que eles também podem competir por poder de comando! Uma das mais interessantes, e bizarras, evidências disso é a "Síndrome da Mão Alheia". Ela acomete pacientes "split brain" e corresponde à aquisição de movimentos involuntários por um dos braços. Sem a vontade e o controle consciente da pessoa, o braço se move "sozinho", e pode simplesmente derrubar um objeto, tentar retirar a blusa, ou até esbofetear a própria face ou tentar estrangular o próprio pescoço! É como se o braço passasse a ser controlado por "outra pessoa" ou por algum "espírito brincalhão" incorporado no braço afetado.

Com os hemisférios conectados pelo corpo caloso, normalmente o lado dominante (o que tem a "palavra final") é o esquerdo. Quando eles são desconectados pela remoção do corpo caloso, inicia-se uma competição por "poder". De fato, pacientes "split brain" demonstram claramente essa competição quando lhes é pedido para realizar tarefas específicas com uma das mãos. O que se observa é que a outra mão começa a se meter na tarefa, involuntariamente, e as duas ficam "brigando", competindo para ver quem faz a tarefa! Na síndrome, por alguma razão, a competição fica mais feia e um dos hemisférios começa a ficar "enfurecido", gerando os movimentos bizarros. Bizarros justamente por serem comandados por um dos hemisférios, mas sem serem comandados pela consciência da pessoa.

Enfim, mais um dos mistérios que tornam o estudo da Neurociência uma coisa fascinante!



*Professor do Laboratório de Biologia Celular e Tecidual (LBCT) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da UENF.



SUGESTÃO DE LEITURA:

Michael S. Gazzaniga, Richard B. Ivry, George R. Mangun. Neurociência Cognitiva: A Biologia da Mente. 2ª edição (2006). Ed. Artmed.

Oliver Sacks. O Homem que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu. Ed. Companhia das Letras.

Sato Y, Mori K, Koizumi T, Minagawa-Kawai Y, Tanaka A, Ozawa E, Wakaba Y, Mazuka R. Functional lateralization of speech processing in adults and children who stutter. Front Psychol. (2011) 2:70; pp 1-10.




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Políticas para a ciência


Política científica e política tecnológica: o que a mídia tem a ver com isso? A temática será abordada no II Simpósio Nacional de Jornalismo Científico, que ocorrerá dias 28 e 29/11/12, no Centro de Convenções da UENF.

Entre jornalistas, pesquisadores das mais variadas áreas e futuros profissionais dos dois campos, o II Simpósio Nacional de Jornalismo Científico deverá reunir cerca de 280 participantes. Dentre eles, 38 tiveram trabalhos selecionados para apresentação na forma de banner ou exposição oral.

A questão de fundo do evento envolve a maneira como a mídia pode estimular a participação da sociedade no debate sobre questões de política científica e tecnológica. Um aspecto central da questão – o envolvimento do cientista nos esforços de divulgação da ciência – será abordado na conferência de abertura por aquele que é a principal referência da divulgação científica no Brasil, o físico Ildeu de Castro Moreira. Ele vai sobre “Por que o cientista agora tem que se comunicar?”, em referência a novas diretrizes oriundas do CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.  Ildeu responde pelo Departamento de Popularização e Difusão da Ciência da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Graça Caldas (Labjor/Unicamp), Lena Vânia Ribeiro Pinheiro (coordenadora do Canal Ciência/Ibict), Renata Dias (editora do Jornal da Ciência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e Sofia Moutinho (jornalista da revista Ciência Hoje) serão alguns dos demais especialistas presentes. Uma mesa voltada especificamente para a inserção de pautas científicas em mídias regionais reunirá os jornalistas Vitor Menezes (presidente da Associação de Imprensa Campista) e Orávio de Campos Soares (coordenador do curso de Jornalismo da Fafic/Uniflu), além de Carlos Henrique Medeiros de Souza (doutor em Comunicação e coordenador do programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da UENF).

Dos trabalhos selecionados pelo Simpósio, seis terão apresentação oral, no dia 29/11, das 9h às 12h. Também serão oferecidos os seguintes minicursos: “Como escrever textos jornalísticos”, “Divulgação científica em Astronomia”, “Vídeos educativo-científicos e as novas tecnologias do cinema” e “Pesquisadores e jornalistas: uma parceria necessária”.

Consulte a página do II Simpósio Nacional de Jornalismo Científico.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Coluna Nutrição: Leguminosas




Leguminosas


Karla Silva Ferreira e Luiz Fernando Miranda*

As leguminosas são grãos contidos em vagem, como por exemplo feijões, lentilhas, ervilha, grão-de-bico, soja, amendoim, guandu e tremoço. Em geral, as leguminosas são ricas em proteínas, carboidrato, fibra, magnésio, ferro, manganês, fósforo, potássio, cobre, zinco, vitamina B6 (piridoxina) e B3 (niacina), além de conterem baixo teor de lipídio (exceto o amendoim e soja).

Algumas leguminosas podem ser consumidas cruas, como é o caso do amendoim. Entretanto, a maior parte delas deve ser consumida cozida. Com o cozimento, há a diluição dos nutrientes em, aproximadamente, três vezes. Mas, ainda assim, continuam sendo alimentos muito nutritivos.

A explicação para o fato de as sementes — e dentre elas as leguminosas — serem tão nutritivas, é que, para germinarem, elas dependem apenas da água, pois todos os nutrientes necessários ao crescimento inicial já devem existir nelas. À medida que absorvem água, começam a ter um metabolismo mais intenso para formarem as primeiras raízes e folhas.

Nas tabelas é apresentado o valor energético e a quantidade de alguns nutrientes em grãos cozidos.
O feijão cozido, por exemplo, pode conter ferro em quantidade similar à da carne, entre 1 e 3 mg de ferro/100g. Entretanto, o ferro presente nas leguminosas, assim como nos demais alimentos de origem vegetal, não é bem absorvido. Para aumentar a absorção, é recomendado que sejam incluídos na mesma refeição alimentos fontes de vitamina C, como por exemplo frutas, sucos naturais e saladas. Por outro lado, não se deve consumir leite e derivados junto às refeições que sejam as principais fontes de ferro, como o almoço e o jantar, pois o cálcio interfere negativamente na absorção do ferro.

Embora as leguminosas sejam ricas em proteínas, estas (exceto as da soja) não são de boa qualidade como as do leite, carnes e ovos. Entretanto, quando as leguminosas são consumidas junto com cereais, eles fornecem proteínas de boa qualidade, pois os aminoácidos que estão deficientes nas proteínas das leguminosas (os sulfurados, metionina e cisteína) são encontrados em maior quantidade nas proteínas dos cereais, que por sua vez são deficientes no aminoácido lisina. Por isso a dobradinha arroz e feijão é muito nutritiva. A proporção recomendada é: três partes de arroz para uma de feijão.

Recomenda-se o consumo diário de 1 porção de leguminosas,  garantindo no mínimo, 5% (ou 100 Kcal) do total de energia com base numa dieta de 2000Kcal/dia.

* Professora e doutorando do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Capim-elefante: nova cultivar

A nova cultivar tem boa produção e alto valor nutritivo
Após 10 anos de pesquisas, cientistas do setor de Forragicultura e Nutrição de Ruminantes do Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal (LZNA) da UENF comemoram o lançamento de uma nova cultivar do capim-elefante que possui maior potencial de produção de forragem e alto valor nutritivo. Trata-se do BRS Kurumi, resultado da parceria da Universidade com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta). 

Colaborador da Rede Nacional de Avaliação de genótipos de Capim-Elefante (Renace), o professor Hernán Maldonado, da UENF, coordena a pesquisa e explica que foram realizadas complexas avaliações de mais de 35 genótipos de capim-elefante, envolvendo nesse trabalho bolsistas de iniciação científica e pós-graduandos em Ciência Animal da UENF.

- O melhoramento genético de forrageiras só é válido após vários ensaios de avaliação dos genótipos sob diferentes condições de solo, clima e manejo – diz.

As pesquisas tiveram o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Segundo Maldonado, as vantagens deste tipo de capim estão no seu crescimento vigoroso com rápida expansão foliar, intenso perfilhamento, elevada relação folha/colmo e seu porte baixo.

- O BRS Kurumi possibilita a intensificação da produção animal com menor uso de concentrado. Além disso, o porte baixo facilita o manejo – afirma.

A característica de pequeno porte chegou a batizar o capim: seu nome “Kurumi” significa menino na língua indígena tupi-guarani. Entusiasmado com o resultado positivo do trabalho, Maldonado afirma que o novo “menino” é uma ótima opção para os produtores que almejam intensificar seu sistema de produção animal.

- Convido a todos os interessados a conhecer o BRS Kurumi no campo experimental da UENF.

Rebeca Picanço

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Depois do infarto

Pesquisa da UENF testa terapia com células-tronco para recuperar tecido danificado

Artérias coronárias (foto Wikipedia)
O infarto do miocárdio é o responsável por 400 mil internações por ano no Brasil, gerando um gasto de cerca de 150 milhões de reais. Com foco no tratamento do infarto, a pesquisa de mestrado de Jussara Peters  Scheffer, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em  Ciência Animal da UENF,  tem a ambição de tornar possível uma recuperação melhor do paciente pós-infarto, com a recuperação da área lesionada do músculo cardíaco, melhorando assim o prognóstico e recuperação do paciente.

Depois do infarto, a parte atingida do coração cria uma cicatriz que impede esta zona de apresentar uma função normal, o que, de acordo com a área atingida, pode comprometer a qualidade de vida.  A terapia consiste em aplicar células-tronco no local do infarto, permitindo que o coração repare o tecido danificado e, consequentemente, esteja novamente capacitado a desenvolver suas funções. 

Orientado e coorientado respectivamente pelos professores Claudio Baptista de Carvalho e André Lacerda, o estudo já passa por sua fase clínica, ou seja, já estão sendo feitos testes em seres humanos, mas ainda sem resultados definitivos. O que ainda está sendo avaliado é quando a terapia deve ser aplicada: no mesmo dia do infarto, 30 dias depois ou outras opções.

Jussara Peters Scheffer, da UENF
Os dados estão sendo processados com a ajuda de uma equipe de estatísticos do Instituto do Coração de Porto Alegre.

A pesquisa, selecionada para apresentação oral, é uma das 404 apresentadas durante a XII Mostra de Pós-Graduação da UENF, realizada de 15 a 18/10/12, no Centro de Convenções da Universidade. O evento integrou a programação local da IX Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, ao lado da IV Mostra de Extensão IFF-UENF-UFF.

Ana Clara Vetromille

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Coluna Nutrição: Diabetes



 Diabetes: você pode ter e não saber

 Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira*

Em 2011, a Federação Internacional de Diabetes divulgou o último levantamento sobre a quantidade de diabéticos no mundo, mostrando que a doença atinge pelo menos 366 milhões de pessoas. No Brasil, cerca de 10 milhões de pessoas são portadoras da doença e 500 casos surgem a cada dia. O Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, apresenta o maior contingente diabético do país, afetando quase 10% da população. Segundo o Ministério da Saúde, o Diabetes está entre as cinco doenças crônicas não transmissíveis que mais matam no mundo.

Existem principalmente dois tipos de Diabetes: o tipo 1 e o tipo 2. O tipo 1 chama-se Diabetes Mellitus Insulinodependente. Ela ocorre quando o indivíduo não produz insulina em função da doença autoimune. Assim, o próprio organismo destrói células específicas do pâncreas que produzem insulina (células beta). Com a ausência ou baixa produção deste hormônio, a glicose se eleva no sangue. Estes indivíduos, portanto, necessitam de medicamentos e insulina, que também são fornecidos gratuitamente em setores públicos de saúde.

Indivíduos portadores do Diabetes tipo 2, entretanto, produzem insulina normalmente, mas possuem muitas células parcialmente ou totalmente insensíveis ao contato com a insulina, diminuindo a captação de glicose no sangue e, consequentemente, elevando o teor da substância. O Diabetes Mellitus tipo 2 acomete 90 a 95% dos diabéticos e sua causa é multifatorial, influenciada pela inatividade física, excesso de gordura corporal, genética e dieta. Mas qual a importância de controlar o teor de glicose no sangue?

O teor de glicose no sangue não pode ser muito baixo, inferior a 70mg/dL de sangue, pois resulta em hipoglicemia, fraqueza, até coma e morte. E nem alto, frequentemente acima de 126 mg/dL de sangue, resultando em hiperglicemia contínua. Em curto prazo, a constante hiperglicemia, em termos populares, resulta na produção de substâncias que podem prejudicar a visão, a função de proteínas das células do sangue, dos vasos sanguíneos e de receptores de insulina contribuindo para o desenvolvimento do Diabetes. Se o Diabetes não for tratado, os efeitos mencionados acima se agravarão, podendo resultar em doenças oftalmológicas, insuficiência renal, doenças neurológicas, cardiovasculares, acidente vascular periférico e cerebral (AVC) e morte.

Há muitas pessoas que são diabéticas ou pré-diabéticas (glicose no sangue em jejum, regularmente, entre 100 e 125mg/dL de sangue) e não sabem, pois os sintomas podem não ser percebidos pelo doente. Segundo o Ministério da Saúde, em recente diretriz para cuidado aos diabéticos, publicada em setembro de 2012, os principais sintomas clínicos são: perda de peso aparentemente inexplicável, urinar em grande quantidade sem ingestão de muito líquido, além de excessiva sensação de sede. Se você tem estes sintomas, procure um(a) médico(a), de preferência endocrinologista. É preciso investigar bem para diagnosticar corretamente.

E a nutrição, em quê ela pode contribuir para prolongar, melhorar a qualidade de vida dos diabéticos e prevenir a doença? Seguem algumas contribuições:

1.    Além de cuidado médico, os diabéticos devem ter orientação nutricional para elaboração de dietas e monitoramento da glicose no sangue. Ter Diabetes não significa ser proibido de ingerir os alimentos que se deseja, mas sim ter o controle dietético. Os pré-diabéticos e indivíduos não diabéticos com histórico da doença na família devem ter atenção redobrada.

2.    Jamais elimine carboidratos da dieta. Isto independe se você é ou não diabético. Ingerir carboidratos é fundamental à vida!


3.    Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, 61% dos casos da doença ocorrem devido à obesidade! Portanto, evite o consumo de alimentos em excesso e faça exercícios físicos com respaldo médico.

4.    Sempre que possível, ao consumir alimentos ricos em carboidratos, procure ingerir juntamente alimentos ricos em fibras e proteínas, mas com pouca gordura. Exemplo: comer pão ou torrada com creme de ricota ou requeijão light pode ser mais saudável do que comer a torrada ou pão puro. Do ponto de vista técnico, o índice glicêmico da torrada complementada é menor. Outros exemplos mais saudáveis: macarrão com molho “light” e vegetais, pão integral com sementes, arroz com feijão, iogurte light, queijo com goiabada, refeição em geral com vegetais.

5.    Evite a ingestão excessiva de bebidas ricas em sacarose (açúcar), como refrigerantes, refrescos de guaraná adocicados (que não podemos citar o nome) e sucos adoçados.

6.    Um recado àqueles que praticam exercícios físicos (não atletas): não consumir suplementos à base de maltodextrina em excesso (hipercalóricos). A maltodextrina é um carboidrato de rápida absorção, que provoca picos agudos de glicose e insulina no sangue, fato que deve ser evitado para prevenção do Diabetes. Estes produtos foram elaborados para atletas e devem ser ingeridos estrategicamente. Consumi-los sem orientação nutricional pode fazer mal em longo prazo (leia a matéria anterior sobre Suplementos Alimentares, neste mesmo Blog).

7.    Consuma diariamente verduras, legumes e frutas, de preferência in natura. Exemplos de frutas indicadas para os diabéticos: pera inteira, maçã inteira, mamão, morango, kiwi, laranja baía, uva inteira, abacate e acerola.


* Doutorando e professora do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF

Novo biomaterial pode aperfeiçoar implante de coluna

Imagine se — depois de um acidente ou em virtude de uma hérnia de disco — você tiver que ser submetido a uma cirurgia para a colocação de um implante na coluna vertebral. É possível  repor o osso perdido ou colocar um disco, mas o implante precisa ser trocado de tempos em tempos, certo? Mais ou menos. Esta realidade pode vir a mudar com a pesquisa feita pela mestranda  Zulmira Alice Soares Guimarães, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais da UENF.

Orientada pelo professor Marcello Filgueira, do Laboratório de Materiais Avançados (LAMAV) do Centro de Ciência e Tecnologia (CCT) da UENF, Zulmira relata a descoberta de um material com propriedades físico-mecânicas e biológicas que permite a sua aplicação como biomaterial, para fins de implante ósseo tal qual o disco de coluna vertebral.

A pesquisa é uma das apresentadas durante a XII Mostra de Pós-Graduação da UENF, realizada até esta quinta, 18/10, no Centro de Convenções da Universidade, como parte da programação local da IX Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

O novo biomaterial é composto por diamante e titânio. O último é o material correntemente usado para próteses e implantes ósseos. No entanto, o titânio é mais rígido que o osso e possui alto coeficiente de fricção, ou seja, há muito desgaste do material. O diamante é o material conhecido por ter menor coeficiente de atrito e maior biocompatibilidade. As pesquisas mostraram que a combinação dos dois materiais é capaz de produzir um material de  alta longevidade.

Os novos implantes ósseos que venham a ser feitos a partir deste novo biocompósito poderiam trazer melhor qualidade de vida às pessoas que dependem  deles para andar, comer etc. A tecnologia também promete menores custos de fabricação. Os testes foram feitos in vitro e a combinação de materiais não apresentou toxicidade. No entanto, implantes à base deste novo biocompósito ainda não tem previsão para entrar no mercado.

Ana Clara Vetromille



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Mulheres no Bope

Reprodução - revista Marie Claire
“Tem mulher aí?” Foi a pergunta que Renata de Souza Francisco fez ao Bope por telefone antes de dar início a sua pesquisa de mestrado em Sociologia Política na UENF. E a resposta que ela encontrou foi positiva: são seis integrantes femininas na unidade do Bope do Rio de Janeiro. Três delas são do quadro de combatentes e três do quadro de saúde.

A pesquisa, selecionada para apresentação oral, é uma das cerca de 420 apresentadas durante a XII Mostra de Pós-Graduação da UENF, realizada até esta quinta, 18/10, no Centro de Convenções da Universidade. O evento integra a programação local da IX Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, ao lado da IV Mostra de Extensão IFF-UENF-UFF.

Em pesquisa de campo, a mestranda Renata descobriu que o treinamento para soldados do Bope é de fato como mostra o filme “Tropa de Elite”. Embora sejam oficialmente aceitas, mulheres ainda não marcaram presença no curso.

- São quatro meses de “sofrimento”. O Coesp (Curso de Operações Especiais) sempre começa com turmas abarrotadas, mas poucos são os alunos que concluem o curso – acrescenta a estudante.

Em um batalhão onde a agressividade é uma característica, a pesquisadora tem por objetivo fazer uma analise sobre a participação feminina em profissões que até pouco tempo eram exclusivamente masculinas. A Polícia Militar tem mais de 200 anos, mas mulheres só fazem parte desta história há 30. Foi apenas no fim da ditadura militar que a entrada de mulheres foi permitida. Segundo a pesquisadora, existem vertentes que especulam o ingresso feminino na polícia como uma forma de dissociar a imagem da PM com a ditadura.

- Foi uma tentativa de humanizar a instituição, já que culturalmente a imagem feminina é associada a bondade, beleza, honestidade e docilidade.

Como aluna do mestrado em Sociologia Política da UENF, Renata de Souza Francisco faz visitas semanais ao batalhão. Seus estudos têm a orientação da professora Marinete dos Santos Silva, do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (LESCE/CCH/UENF).

Semana de C&T - A programação local da Semana de C&T inclui ainda a IV Mostra de Extensão IFF-UENF-UFF, reunindo trabalhos das três instituições públicas de ensino, pesquisa e extensão. Só a UENF tem mais de 100 projetos cadastrados na Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários. A programação completa da Semana de C&T na UENF pode ser conferida aqui.

Ana Clara Vetromille

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Coluna Um quê de neurociência




Livre-arbítrio: isso existe mesmo?


                                                                                           Arthur Giraldi Guimarães*


Quem comanda a máquina que comanda o corpo humano?
O livre-arbítrio não existe! Sim, é isso que defendem alguns neurocientistas, obviamente fundamentados em importantes evidências científicas. A nossa consciência seria “enganada” pelo cérebro, que daria a ilusão de que as decisões são tomadas por ela. Mas na verdade, ao que parece, quem decide é o cérebro (que, aliás, é também o criador da própria consciência).

Em outras palavras, nossa consciência seria igual à Rainha da Inglaterra: parece que é a soberana e que manda e decide tudo, mas na verdade não manda e nem decide nada! Quem manda mesmo é o cérebro (que na analogia feita seria o Parlamento).

Isso certamente nos obriga a rever e questionar o conceito de “livre-arbítrio”, ou “vontade”. Isso existe mesmo? Naturalmente, este é um tema de altíssima complexidade, e obviamente existe discordância de pontos de vista entre os neurocientistas envolvidos neste tipo de estudo.

A ideia do livre-arbítrio como uma ilusão vem desde estudos clássicos até estudos mais recentes. Um dos maiores defensores da ideia é o neurocientista Michael Gazzaniga, coordenador do Centro para o Estudo da Mente da Universidade da Califórnia, que escreveu recentemente um livro sobre esse tema. Ele e muitos outros decretam o fim do livre-arbítrio baseados nos estudos de mapeamento da atividade cerebral durante o pensamento e a execução de movimentos e tarefas.

Basicamente, eles se apoiam nos resultados dos estudos que mostraram que ocorre atividade cerebral antes da ocorrência da consciência. Os exemplos são vários. Durante uma tarefa em que os voluntários tinham que decidir por apertar um botão, foi demonstrado que a área pré-motora do cérebro (responsável por planejar e coordenar a execução de movimentos) é ativada milissegundos antes da tomada de decisão consciente em apertar o botão.

Mais que isso: num estudo em que voluntários tinham que tomar a decisão de apertar um botão com a mão direita ou com a esquerda, os pesquisadores foram capazes de prever qual seria a decisão tomada pelo voluntário cerca de 7 segundos antes de ele tomar consciência do que fazia (ou seja, antes do ato consciente).

Estes e outros estudos sugerem que a vontade consciente, o sentimento de “querer” algo, ocorre depois, e não antes, da atividade cerebral. Primeiro, o cérebro decide e manda a ordem de execução. Depois, ele cria a consciência do ato, dando a sensação de que foi a consciência que quis e determinou o ato. Daí, portanto, a ideia de que a vontade, o livre-arbítrio, seria meramente uma ilusão, um “floreio” do nosso cérebro.

De fato, outra evidência de que primeiro ocorre a atividade cerebral e depois a sensação de vontade é a observação de que a estimulação elétrica, através de eletródios implantados diretamente na região cerebral de representação motora da mão, induziu pacientes a sentirem vontade de levantar a mão.

O próprio neurocientista Michael Gazzaniga já declarou que nós não precisamos da nossa consciência para tomar decisão alguma. Então, qual seria o papel dela? Lembre-se que a consciência também é fruto da atividade cerebral, mas diferente daquela responsável pela decisão sobre uma ação, tomada pelo cérebro.

É possível que ela sirva apenas para dar coerência e sentido às coisas, uma forma de contextualização das ações, fazendo com que exista uma razão e um sentido para as coisas que nós próprios fazemos e que nos dão a sensação de continuidade do mundo percebido.

Como um assunto denso como esse não poderia deixar de ter visões divergentes, existem pesquisadores que questionam as metodologias usadas nestes estudos sobre mapeamento cerebral. Primeiro, existem críticas no sentido de questionar se as técnicas usadas permitem medir realmente com precisão o tempo (normalmente na ordem de segundos e milissegundos) entre uma atividade cerebral e a execução de um movimento.

Segundo, todas as observações feitas nos estudos podem estar provando apenas que algumas decisões são tomadas pelo cérebro antes da consciência. Mas como são sempre testes particulares e específicos, com alto grau de padronização e simplificação para ter acurácia metodológica, não seriam prova definitiva de que todas as decisões possíveis sejam tomadas apenas de forma inconsciente. A simplificação dos testes não abordaria formas mais complexas de tomada de decisão, que aí sim poderiam perfeitamente necessitar da consciência.

O fato é que, se pararmos para nos autoanalisarmos, veremos que tomamos sim muitas decisões sem “pensar”, inconscientemente e involuntariamente, mesmo que pareça que foi voluntária. Um exemplo pessoal: ontem, antes de terminar de escrever esta coluna, fui à rua de carro. Num sinal com separação de seguir em frente ou virar à esquerda, eu aguardava para virar à esquerda. Então, apenas o sinal de seguir em frente abriu, e o carro que estava na frente começou a andar (ele também pretendia virar à esquerda). Eu, ao ver de relance o sinal verde de “siga em frente” e vendo o carro da frente ir, tomei a decisão de ir também e iniciei o arranque. Segundos (ou milissegundos, nem sei bem!) depois, percebi que a decisão estava errada e que o sinal de meu interesse, o de “vire à esquerda” ainda estava fechado, e então freei o carro e esperei. Bem, a segunda decisão foi aparentemente voluntária e consciente. Mas e a primeira? Essa certamente não foi.

À luz das evidências científicas apresentadas, a primeira decisão, mesmo sendo de alta complexidade e de relevância para a sobrevivência, foi rápida e não deu tempo de passar pela consciência. Depois que as informações chegaram e foram processadas pela consciência, um “tempão” depois, aí sim a segunda decisão pode ter sido tomada de forma consciente. Pelo menos é isso que eu acredito que tenha acontecido com o meu cérebro durante este fato relatado! Mas, também segundo as evidências apresentadas, mesmo a segunda decisão pode ter sido inconsciente, e meu cérebro pode ter criado a ilusão de que foi minha (pobre) consciência que decidiu!

É, a neurociência é mesmo uma destruidora de ilusões! Para aqueles autoconfiantes, seguros da sua capacidade de tomar decisões voluntárias inteligentes e eficazes, cheios de si, sentimos muito em dizer que pode não ser você quem decide as coisas. De certa forma até é você, pois no final das contas cognitivamente você é o seu cérebro, mas pode ser que não seja o “eu consciente” quem esteja à frente das coisas. Toda essa sua empáfia pode ser apenas um “floreio” do seu cérebro.......triste, não?

Bom, essa discussão ainda está de pé e terá muitos e muitos capítulos pela frente!


*Professor do Laboratório de Biologia Celular e Tecidual (LBCT) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da UENF.



SUGESTÃO DE LEITURA:

Leisman G, Machado C, Melillo R, Mualem R. Intentionality and "free-will" from a neurodevelopmental perspective. Front Integr. Neurosci. 2012; 6(36): 1-12.


Gazzaniga, Michael S. Who's in Charge? Free Will and the Science of the Brain. 1ª Ed. Ecco / HarperCollins, 2011.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Campanhas eleitorais: quem paga a conta?

Mais controle: escândalos trazem mais cautela aos doadores
Será que sabemos a origem e o destino de todo o dinheiro usado em campanhas eleitorais? Na tese de doutorado de Vitor Peixoto, hoje professor do CCH/UENF, foram analisados sistemas de financiamento de campanhas em 94 países considerados democráticos. O Brasil figurou entre os países que mais regulam a competição eleitoral.

De acordo com o pesquisador, que se doutorou pelo antigo Iuperj (atual Iesp/Uerj), toda regulação do Estado é uma forma de intervir na competição política.

— No Brasil, os partidos e candidatos atuam num mercado altamente regulado, principalmente no que concerne ao financiamento das campanhas. Por um lado, o Estado atua direta ou indiretamente como fomentador financeiro dos partidos; por outro lado, impõe uma série de proibições à participação privada de atores tais como sindicatos e empresas concessionárias de serviços públicos — disse.

O fomento financeiro aos partidos feito diretamente é o repasse em dinheiro conhecido como fundo partidário. Embora o repasse seja realizado no período entre as eleições, os recursos são utilizados para obter votos – que, segundo Vitor, é por definição o objetivo de qualquer partido político.

— Já os recursos indiretos são, por exemplo, o acesso à mídia distribuído aos partidos como o horário eleitoral gratuito. Porém a gratuidade é somente aos partidos, dado que as emissoras são ressarcidas com isenções de impostos, ou seja, o horário é pago centavo a centavo pelos cidadãos brasileiros. Todos esses recursos fazem parte do que chamamos de custo da democracia. Toda democracia tem um custo, mas é um custo sempre menor do que uma ditadura — explicou.

No Congresso há várias propostas de um sistema exclusivamente público de campanha, ou seja, proibição total de participação privada nas eleições. Para Vitor, isto é uma temeridade, posto que não existe experimento democrático no mundo com tal sistema.

— Essa proposta ignora que a doação de campanha é uma importante forma de participação política do cidadão. O que precisa ser revisto no sistema brasileiro é o limite à doação, que hoje é relativo ao percentual auferido no ano anterior às eleições. O limite é de 2% no caso de pessoas jurídicas e de 10% para pessoas físicas. Ou seja, um megaempresário tem mais direito do que outro mortal qualquer. Outro ponto é o limite de arrecadação dos partidos, posto que é o próprio partido que diz o quanto poderá arrecadar naquela eleição — afirmou.

Diante do atual e polêmico julgamento do mensalão, Vitor Peixoto diz que a própria existência do escândalo provocou mudança de comportamento de atores políticos, principalmente as empresas. Segundo o professor, antes do caso era comum haver doações fora do sistema formal, conhecidas por “caixa 2”, para se proteger de possíveis reprimendas em caso de vitória dos adversários. Após as denúncias em 2004, e o consequente aumento da fiscalização tanto dos órgãos fiscalizadores como da imprensa, aumentaram muito os riscos de escândalos, e as empresas passaram a ter muito mais cuidado com as doações. Sinal disto, afirma Vitor, é que o número de empresas que fazem doações registradas é dez vezes maior em 2010 do que em 2002.

— Posso afirmar com segurança que hoje o sistema de fiscalização está muito mais sofisticado do que há dez anos, principalmente após o acordo entre a Receita Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, que prevê o cruzamento de dados dos doadores e dos partidos. Enfim, sempre será uma corrida de gato e rato. Não obstante o tamanho do desafio, a democracia brasileira está no caminho correto de aperfeiçoamento do sistema — opinou Vitor.

Thaís Peixoto

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Coluna Nutrição




Suplementos alimentares


Luiz Fernando Miranda e Karla Silva Ferreira*

A indústria de suplementos alimentares fatura anualmente mais de 180 bilhões de dólares no mundo com a venda de produtos, que teoricamente, deveriam ser consumidos por atletas. Porém, os frequentadores de academias e até mesmo indivíduos sedentários se tornaram adeptos destes produtos.

Segundo a Associação Brasileira de Academias, o Brasil é o segundo maior mercado de academias de ginástica do mundo, que pode ser justificado, principalmente pela busca à estética, que também é um forte estímulo ao consumo de suplementos.

Atualmente, os tipos de suplementos mais vendidos no Brasil são os destinados a aumento de massa muscular, emagrecimento e funcionais, respectivamente (Veja Quadro). 

No Brasil, a fabricação e comercialização destes produtos são regulamentadas pelo Ministério da Saúde por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Alguns deles são fiscalizados também pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Embora o termo suplemento seja utilizado na venda de produtos alimentares para fins estéticos e de saúde, a Anvisa só reconhece como suplemento aqueles destinados para atletas e produtos vitamínicos e minerais.

Muitos suplementos, se utilizados de forma estratégica, são benéficos à saúde e têm  efeito positivo no ganho de massa muscular e desempenho físico, por exemplo. Entretanto, muitos fabricantes põem em dúvida a seriedade do produto pelo excesso de propaganda de efeitos sem comprovação para alavancar as vendas.

Desconfie dos produtos que têm efeito laxante, tiram o sono, provocam ondas de calor, hipertrofiam demais os músculos e em curto prazo — os nutrientes em si não provocam estes efeitos, que podem ser causados por componentes proibidos em alimentos pela Anvisa, como sibutramina, extrato de tribulus terrestris, laxantes, efedrina, dimetil-amilamine e até esteróides anabolizantes.

Outro ponto que o consumidor deve ficar atento refere-se às sugestões de consumo declarado nos rótulos dos suplementos (Figura). Na figura, o fabricante recomenda quantidade excessiva de carboidrato para ser diluído em um copo de leite ou água.

Figura: sugestão de consumo declarado pelo fabricante no rótulo de um suplemento a base de carboidrato

Geralmente as quantidades sugeridas, como estas, excedem as necessidades das pessoas, e o consumo indiscriminado pode ser danoso. Pessoas que não sabem que são diabéticas ou pré-diabéticas, por exemplo, podem agravar a doença ou mesmo se tornarem diabéticas com o consumo excessivo de hipercalóricos. Estes produtos possuem quantidades elevadíssimas de açúcar de alto índice glicêmico.
       
Em suma, a suplementação pode trazer benefícios, mas antes de consumir procure ajuda de nutricionistas, de preferência com especialidade em nutrição esportiva. Ele(a) saberá avaliar sua real necessidade nutricional e, se for o caso, indicará o suplemento correto.
             

*Luiz Fernando Miranda é doutorando e Karla Silva Ferreira é professora do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA) da UENF.